A exposição Salvador Negroamor com certeza está entre as imagens marcantes do verão soteropolitano. São 1.501 painéis expostos ao ar livre por toda parte da capital baiana. O destaque das imagens são pessoas do dia a dia da cidade de Salvador e de Angola.
Painel na esquina da Av. Ademar de Barros com Av. Oceânica
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Vendedores ambulantes, cobradores de ônibus, transeuntes do cotidiano da cidade, entre outros, configuram os “anônimos” apresentados na mostra. Claro, pessoas com nome e identidade, apesar da mídia parecer não considerar assim. Daí, as aspas.
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É notório que para se fazer a exposição e seus painéis gigantescos nos prédios, outdoors, fotografias em postes, entre outros mídias, gasta-se muito dinheiro. O projeto captou cerca de R$ 2 milhões via Lei Rouanet. Fato que tem gerado questionamentos e algumas polêmicas em torno da mostra.
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Discussões à parte, a repercussão da exposição também encontra espaço para comentários sobre o seu sentido e impacto social. Entre eles, os dos próprios fotografados. “Quando fui ver a foto da minha filha, na Linha Verde, fiquei parada, muda, sabe por quê? Estamos vendo a revolução dos humilhados”, diz a dona de casa Hilda Almeida dos Santos, 48 anos, em entrevista para a reportagem do A Tarde On–line.
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Postes foram usados como suporte em quase toda a cidade
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Elevar a auto-estima destas pessoas é outro ponto defendido na exposição. Em entrevista ao programa Soteropolis, que vai ao ar pela TVE-Bahia, Sérgio Guerra, fotografo e produtor da exposição, também defendeu esta idéia.
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Numa outra entrevista para o jornal Correio da Bahia, Guerra vai além: “Quando olho para Salvador, vejo uma cidade dividida, preconceituosa e muitas vezes racista. O conceito de cidade alta e cidade baixa aqui é literal”, desabafa.
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É bom lembrar que Salvador Negroamor não se resume à mostra fotográfica. O projeto também compreende a produção de um CD, o edição de um livro e a fundação de uma ONG, a qual já criou uma escola para alfabetizar adultos na Feira de São Joaquim.
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“A Riqueza” – prima pobre
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De todos os argumentos, contra ou a favor, da exposição Salvador Negroamor, um me incomoda. Especificamente o comentário de alguns analistas sobre o “ineditismo da idéia de evidenciar pessoas “anônimas”” – olhe as aspar de novo.
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A mesma abordagem foi feita pela exposição a “Riqueza de Irará”, realizada pela Casa da Cultura de Irará em janeiro de 2005, dois anos antes de Salvador Negroamor. E, quem sabe, neste imenso Brasil, outros já tenham tentado fazer o mesmo sem sucesso.
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O diferencial é que na mostra realizada em Irará, não houve leis e, quase, nenhum outro tipo de incentivo. E, sem a magnitude da prima soteropolitana, a exposição iraraense não atingiu o grande público ou mobilizou a cidade.
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No entanto, o pouco destaque atingido pela mostra iraraense fez cumprir o seu objetivo. Ou seja, mostrar que pessoas são o maior patrimônio. E a maior riqueza de um lugar são as pessoas que o compõe. Prerrogativa que também marca Salvador Negroamor ao chamar atenção para a riqueza da capital baiana e de Angola.
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– leia abaixo texto publicado na época sobre a exposição “A Riqueza de Irará”.
Fotos de Shirley Stolze “tomadas de empréstimo” no site do Salvador Negroamor
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